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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Gradiente.

todas as coisas estão fadadas a alteração da matéria
e eu suportei sua metamorfose
dentro do meu mais pacífico holocausto.
a borboleta que tenho receio em tocar
hoje.

cada parte que se dissolvia era um espaço a mais
para uma valsa
ou um voo.
as dores lancinantes se transformaram em algumas cicatrizes
meio à outras cicatrizes que eu sequer recordo
como foram ocasionadas.

o ser humano é um degradê de esperanças e feridas, vê?
me submeti à instabilidade dos seus cinzas
e foi a pior viagem
com a melhor companhia
que eu jamais tive.

admirei olhos castanhos e céticos,
mas sabia que te olhar era me olhar
e não possuía certeza se gostava do que via.
sobretudo, sempre quis descansar em suas esferas.
porto seguro.

continuo achando que provavelmente somos o mesmo lado do equilíbrio,
porém é tão efêmero acreditar que você é yin e eu sou yang, tão.
ambos sabemos que não estamos ligados,
de nenhuma forma,
só nos parecemos.

no arco-íris,
no terremoto,
na carta-branca,
no “não se mate",
no xeque-mate.

é improvável que a gente se esbarre
em um conserto de Knopfler
quinze ou vinte anos à frente
e tome três doses de um destilado qualquer,
admirando juntos o quanto poderíamos ter vivido.
é improvável que a gente viva alguns quinze ou vinte anos à frente.
é mais provável crer que, certamente, eu descobrirei que não te amo
tanto como penso e que você se tornará uma das cicatrizes
que eu não me lembro
como consegui.

Tatiane Salles.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Obsoleto.

depois de todo esse tempo, me convenci de que a culpa da erosão foi minha. 
parti por não encontrar mais conforto nos meus próprios ideais.
levo isso inserido no âmbito sombrio
de mim.

o peso da culpa retorna 
todas as vezes 
que a leveza do vácuo 
se expande pelas extremidades 
que um dia tentei torná-las suas. 

falhamos tanto. 
meu coração sempre quis 
se desculpar. 
por cada erro, suicídio, 
cada oportunidade perdida 
de termos nos feito ficar. 
sempre quis somente me desculpar, 
mas, todavia, o perdão é tão inalcançável
quanto o porquê (de tudo).

teria sido fácil - e vazio -
se você nunca tivesse me tirado para dançar.
porém, quanta bagagem se perderia nesse meio tempo inexistente?
mesmo no sufoco da angústia, reconheci coisas novas.
você trouxe à tona um campo de visão
que nenhum outro relacionamento ambíguo,
como o nosso, teria trago.

a dor lacinante que se instalou no meio da sala
quando partimos em direções tão opostas
quanto sempre estivemos
foi para deixar claro que,
em algum ponto,
as noites e as guerras juntos valeram o tempo.

5h am.
ainda honro o velho Seixas.

te levo.
dentro, fora,
bordas do cérebro, memórias, mágoas e ponta dos dedos.

Tatiane Salles.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Queda.

Julieta coleciona
entre
a maior
decepção de sua vida
alguns poemas aleatórios,
vinis e cigarros.

eu quero me lembrar
das pintinhas do seu rosto,
do riso
e da primeira e ultima noite de rock
com Muse e outros feras.

eu quero me lembrar
da doce sensação de cair voando
e de que essa não é apenas uma
expressão figurativa.

eu quero me lembrar
dos políticos que foram presos
considerados de extrema periculosidade
por conhecerem a força de um intelecto
e repassarem a receita da anarquia pessoal.
e do olhar efêmero de Raul
ao supor em suas canções
que nenhum amor é realmente eterno
ainda que o resultado da autopsia seja:
Shakespeare.

eu quero te lembrar
nós não vamos esquecer

Tatiane Salles.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Nota de falescimento.

é com grande pesar que
comunicamos o falecimento
de mais um amor.

não se sabe ao certo quando ocorreu,
somente que era cedo demais para uma das partes.

deixou filhos órfãos e inconsoláveis:
os braços (que se encontram incapacitados de abraçar),
os planos (que se entregaram ao vício e
dia após dia estão jogados pela casa,
embriagados de ausência)
e o caderno de poesias (que de tamanho desolamento não consegue mais rimar).

haverá luto,
não pelas mágoas e erros,
mas sim pelos momentos que fizeram os olhos cerrarem,
a boca esboçar um sorriso
e a respiração tornar-se mais lenta e profunda:
é em nome da felicidade passada que a alma veste-se de negro.

o sepultamento dar-se-á
com o enlouquecedor tic tac do relógio que,
pouco a pouco não nos deixa mais ouvir claramente o tom da voz,
sentir o cheiro
e lembrar quantas colheres de açúcar
eram colocadas no chá de manhã.

Tatiane Salles.


quarta-feira, 4 de junho de 2014

Cena final.


escrever sobre Montecchio e Capuleto
é como te esperar todas as noites
na sacada do meu prédio,
eu não me canso.

o caos interno
e o lirismo da sonoridade de Dire
hão de convir que
os nossos sobrenomes foram extraditados
por uma questão que vai além da 
guerra.

contudo, amo os seus pais
seus filhos que ainda não nasceram
e você na mesma intensidade que o dna dos confins da sua alma
do tamanho da sua inconstância
e da minha
porque Shakespeare quis assim.


somos fruto
do resultado
da nossa própria tragédia

e morte.


Tatiane Salles.


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Colisão.

a poesia não o salva 
de ser atropelado por um navio na avenida principal, 
você sabe. 
esse pensamento 
sempre me vem quando percebo
que eu tenho somente poesia. 

"poesia pode me salvar de quê?

bom, eu me vejo perdido 
menos agora porque eu escrevi o que eu realmente acredito, 
mas estou sozinho
e este frio me paralisa um pouco. 
seria bom para dormir em sua mão.

há uma parte do dia em que poderíamos nos encontrar no metrô
comer um bolo colorido.

a semelhança entre esquecer e perdoar
é uma faca na minha mente. 
eu posso esquecer ou perdoar-lhe? 
beijar ou matar? 
me faria menos triste esquecer,
mas todas as sociedades são inundadas com as coisas
que eles não podem esquecer.

Oriente e Ocidente têm muitas coisas em comum 
e uma delas é ser atingido por um navio em uma avenida principal,
porque isso não se pode perdoar. 
eu quero ser capaz. me perdoar.

eu vi a sua nova vida passear pela janela da varanda,
essa guitarra na esquina ainda diz muito. 
escreveu uma canção que toca no meu rádio
toda terça-feira a noite
quando no parque de ônibus,
no ônibus,
eu voltei a sorrir para você.

Tatiane Salles.