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segunda-feira, 9 de junho de 2014

Nota de falescimento.

é com grande pesar que
comunicamos o falecimento
de mais um amor.

não se sabe ao certo quando ocorreu,
somente que era cedo demais para uma das partes.

deixou filhos órfãos e inconsoláveis:
os braços (que se encontram incapacitados de abraçar),
os planos (que se entregaram ao vício e
dia após dia estão jogados pela casa,
embriagados de ausência)
e o caderno de poesias (que de tamanho desolamento não consegue mais rimar).

haverá luto,
não pelas mágoas e erros,
mas sim pelos momentos que fizeram os olhos cerrarem,
a boca esboçar um sorriso
e a respiração tornar-se mais lenta e profunda:
é em nome da felicidade passada que a alma veste-se de negro.

o sepultamento dar-se-á
com o enlouquecedor tic tac do relógio que,
pouco a pouco não nos deixa mais ouvir claramente o tom da voz,
sentir o cheiro
e lembrar quantas colheres de açúcar
eram colocadas no chá de manhã.

Tatiane Salles.


quarta-feira, 4 de junho de 2014

Cena final.


escrever sobre Montecchio e Capuleto
é como te esperar todas as noites
na sacada do meu prédio,
eu não me canso.

o caos interno
e o lirismo da sonoridade de Dire
hão de convir que
os nossos sobrenomes foram extraditados
por uma questão que vai além da 
guerra.

contudo, amo os seus pais
seus filhos que ainda não nasceram
e você na mesma intensidade que o dna dos confins da sua alma
do tamanho da sua inconstância
e da minha
porque Shakespeare quis assim.


somos fruto
do resultado
da nossa própria tragédia

e morte.


Tatiane Salles.


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Colisão.

a poesia não o salva 
de ser atropelado por um navio na avenida principal, 
você sabe. 
esse pensamento 
sempre me vem quando percebo
que eu tenho somente poesia. 

"poesia pode me salvar de quê?

bom, eu me vejo perdido 
menos agora porque eu escrevi o que eu realmente acredito, 
mas estou sozinho
e este frio me paralisa um pouco. 
seria bom para dormir em sua mão.

há uma parte do dia em que poderíamos nos encontrar no metrô
comer um bolo colorido.

a semelhança entre esquecer e perdoar
é uma faca na minha mente. 
eu posso esquecer ou perdoar-lhe? 
beijar ou matar? 
me faria menos triste esquecer,
mas todas as sociedades são inundadas com as coisas
que eles não podem esquecer.

Oriente e Ocidente têm muitas coisas em comum 
e uma delas é ser atingido por um navio em uma avenida principal,
porque isso não se pode perdoar. 
eu quero ser capaz. me perdoar.

eu vi a sua nova vida passear pela janela da varanda,
essa guitarra na esquina ainda diz muito. 
escreveu uma canção que toca no meu rádio
toda terça-feira a noite
quando no parque de ônibus,
no ônibus,
eu voltei a sorrir para você.

Tatiane Salles.



terça-feira, 27 de maio de 2014

Paralelos.

alienígenas 
me trouxeram
de volta para casa.
percebi do alto o quão tudo é pequeno
em relação as despedidas.

discos voadores
congestionam o transito do céu agora.
é um aceno?

esse adeus inexorável que corre na sua jugular
o riso
as veias do seu braço e a pupila ocultamente distraída apareceram bem na hora
que eu vi
o que jamais será meu.
partida.

Tatiane Salles.


domingo, 25 de maio de 2014

Disfagia.

seu silêncio
me diz coisas
que você diria
caso não estivesse
em silêncio.

a válvula de escape
está em todas as palavras
que nunca foram ditas
pela lua que muda,
mas não some.

e no meio da noite
mastiguei todas as lembranças da estrada.
e no meio do caminho sem querer
engoli toda essa saudade que não mata.
não morre.

Tatiane Salles.


quarta-feira, 26 de março de 2014

Inalei.

Me arrependo de ter te autorizado dizer
que era proibido fumar dentro de casa.
Se eu tivesse fumado,
provavelmente hoje você teria consigo
parte dos meus segredos mais íntimos;
do meu cansaço; da minha fumaça.
E num beijo de lábios, acolheria sua alma a minha.
Com cheiro de cinzas,
talvez,
mas sua.
Inteiramente sua.
Te diria depois que,
a nossa casa perde a estrutura quando faltam os seus passos
e sua cara zangada me desautorizando fumar.

Tatiane Salles.



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Dois polos.

em alguma parte do dia,
do térreo ao décimo segundo andar
compartilhamos o mesmo
declínio.

me perco
quando percebo
que só me encontro
a essa hora.

 
Tatiane Salles.